Muita gente deve achar estranho marcar uma inauguração de fábrica no dia 31 de dezembro. Menos o povo chinês, que em 2008 comemorou a passagem de ano no dia 7 de fevereiro.
O último dia de dezembro foi um dia de trabalho típico na agenda de Zhou Yu, que veio ao Brasil para inaugurar e ser o presidente da Moto Traxx, a primeira fábrica de motocicletas chinesa bancada por por chineses.
Até agora, as fábricas de motos que surgiram na Zona Franca de Manaus a partir da nova fase de investimentos no setor eram empresas de investidores brasileiros que trazem peças da China. É o caso da Sundown e da recém-chegada Dafra, que pertence ao grupo Itavema. Essas empresas contam com mais de um fornecedor de componentes na China. E seus investidores fazem questão de salientar que são brasileiros.
A Moto Traxx é diferente. É uma marca do grupo chinês Jialing, que fabrica mais de um milhão de motocicletas por ano na China e dono de um faturamento anual de US$ 5 bilhões. O nome Traxx é usado nas fábricas que a companhia tem fora do país de origem. São cinco até agora.
Seus representantes fazem questão de esclarecer que o capital do investimento inicial, de US$ 10 milhões, é totalmente chinês. Da China vieram, além de Zhou Yu, o diretor industrial e o diretor financeiro. Para o comando da área de vendas, os chineses decidiram buscar um executivo brasileiro e "roubaram" da concorrente Sundown Rogério Scialo, um profissional que também já passou pela Kasinski.
A fábrica que os chineses inauguraram na Zona Franca de Manaus no último dia do ano passado vai permitir que a marca Traxx, que estreou no mercado brasileiro há cinco anos vendendo desde então apenas produtos importados, dobre já neste ano o volume de vendas que em 2007 somou 20 mil unidades.
Isso é ainda muito pouco em um mercado que chegou a 1,734 milhão de unidades em 2007. Mas, apoiados nas oportunidades que uma fábrica na Zona Franca pode garantir, os representantes da Traxx fazem projeções bem semelhantes às dos seus concorrentes mais diretos.
A idéia é daqui a cinco anos alcançar uma participação de pelo menos 10% . Pelos cálculos de Scialo, em 2012, a venda de motos no Brasil chegará a 3,2 milhões de unidades.
Já atuam no mercado brasileiro 29 importadores de motocicletas. Boa parte com oferece produto chinês. Mas todos estão ainda muito longe de roubar a liderança da Honda, que fechou 2007 com 79,8% das vendas de motos no país. Sua concorrente mais próxima, a Yamaha, outra japonesa, ficou com 14,2%, seguida de longe pela Sundown , que com 5,5% puxa a lista dos novos participantes desse mercado.
Scialo aposta que passada a fase que ele chama de "depuração do mercado", não restarão no país mais do que 15 marcas de motocicletas. Para ele, devem sair da disputa empresas que vieram ao país para "aproveitar" a oportunidade do dólar baixo e da expansão do crédito.
O executivo lembra que a estrutura necessária para que os negócios deslanchem no país é cara. "Só vai continuar crescendo quem, tiver essa estrutura, com tecnologia", destaca.
Numa área em 50 mil metros quadrados da Zona Franca, a Moto Traxx planeja elevar a oferta de modelos - hoje concentrada nos veículos menores, de 125 cc a 250 cc. Os planos são aumentar a variedade de modelos dos atuais quatro para 12, incluindo versões maiores, de 650 cc.
O grupo chinês planeja exportar as motos maiores para os Estados Unidos. Dessa forma, o mercado americano, onde já chegam motos da Jialing produzidas na China, passaria a ser atendido pela fábrica brasileira.
Para que esse plano de expansão dê certo, a Traxx prepara um programa de investimentos adicional de US$ 15 milhões. Para essa fase está previsto dobrar o número de funcionários dos atuais 200 para 400 e elevar a quantidade de peças compradas no Brasil para mais de 40% do valor da motocicleta. Segundo Scialo, a empresa quer ultrapassar rapidamente os limites mínimos de nacionalização exigidos na Zona Franca.
Fonte: Valor Econômico - SP
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