Flávio Kenup tem (mais) uma história incrível para contar. O empresário fluminense, que em 2005 havia rodado 15 mil quilômetros nas terras geladas do sul de Chile e Argentina em uma Honda Bizz, de apenas 100 cilindradas, voltou recentemente de nova aventura. Em oito meses e meio, ele percorreu 14 países numa viagem de mais de 50 mil quilômetros para chegar ao Alasca a bordo de uma motinho Traxx de 110 cilindradas.
Em maio do ano passado, Flávio saiu de Teresópolis (RJ) com o objetivo de provar que qualquer piloto pode fazer uma viagem de longo percurso em cima de uma mo-to de baixa cilindrada. Até o Alasca, teve como grande desafio enfrentar a solidão, segundo ele a sua maior dificuldade. Chegou a pilotar quatro dias sem ter contato com outro ser humano.
Mas a geografia também foi um enorme obstáculo. Na Bolívia, devido a grande altitude, de até 5 mil metros, além do desgaste físico do corpo, também enfrentou a perda de força da motocicleta. No Peru, passou quatro dias com muita febre. Já no Panamá o problema foi burocrático: ficou preso por dois dias devido à falta de documentação para transitar no país. Além disso, encarou o medo de entrar em território colombiano devido às guerrilhas.
A Traxx que lhe acompanhou na viagem foi bem. Flávio teve que trocar apenas um kit de corrente, devido ao desgaste natural pelo longo percurso. Os pneus foram trocados seis vezes. A moto consumiu uma média de um litro de gasolina para cada 42 quilômetros rodados, num total de quase 1.400 litros.
Quanto à hospedagem, pernoitou a maior parte do tempo acampando. Quando possível, ficava em albergues. As refeições eram preparadas por ele mesmo, com o uso de fogareiro, panelas e utensílios que levou.
O cardápio incluía basicamente macarrão, feijão, carne, barras protéicas e muito líquido durante o dia. Fazia quatro refeições diárias, sendo a mais importante a noturna, quando tinha mais tempo.
Flávio diz que as diferenças sociais nos vários países que percorreu constituem algumas das lembranças mais marcantes da viagem. Ele lembra da miséria do povo na Guatemala, Honduras e Nicarágua. E conta que no México precisou dar "gorjetas" a policiais para poder seguir seu caminho. Já do povo boliviano trouxe boas recordações pela solidariedade, principalmente das pessoas de menos poder aquisitivo, que não hesitavam em repartir alimento e abrigo.
Flávio afirma que o contato com diferentes civilizações serviu como amadurecimento pessoal e o ensinou a valorizar o Brasil e o calor humano brasileiro. Ao PLUG, ele contou um pouco mais sobre essa expedição.
Quais foram suas principais dificuldades?
Além da solidão, o principal foi respeitar os limites da motocicleta por sua baixa cilindrada.
Como você se preparou? Houve algum momento em que pensou em desistir?
Vim me preparando fisicamente ao longo de um ano com sessões de musculação. Mas o principal foi o trabalho psicológico, por se tratar de uma expedição muito longa. Algumas vezes o corpo doía devido aos vários dias de pilotagem contínua para que cumprisse a meta programada, porém em nenhum momento pensei em desistir.
E como a moto, de apenas 110 cilindradas, comportou-se?
A moto não quebrou em momento algum. Fui sempre mantendo a revisão. A moto sempre foi valente e deixou para trás outras motocicletas de cilindradas mais altas. E foi atração principalmente nos Estados Unidos e Canadá, onde não há motocicletas de baixa cilindrada.
Quais foram os fatos mais marcantes da viagem?
Posso citar alguns, como a energia positiva que senti em Machu Pichu. Ou o povo indígena da Bolívia, que me acolheu muito bem, sendo tratado por uma família dessa etnia devido ao meu estado ruim de saúde. Também pude conviver com alguns indígenas do Panamá por alguns dias, aprendendo a valorizar a cada dia a vida e as pessoas que convivo. E também não posso deixar de citar a chegada ao Alasca.
Como fazia para dirigir na chuva, com baixia visibilidade? E quais outros obstáculos teve que superar?
Não tive problemas com a chuva, pois a minha velocidade média era muito baixa. Como outros obstáculos, posso citar os 5 mil metros que tive que atingir na Bolívia, os cinco dias de travessia de barco entre Colômbia e Panamá, a corrupção de policiais que encontrei em alguns países. No Panamá, fiquei detido por dois dias pela polícia de imigração devido a um documento. Mas são esses e alguns outros imprevistos que dão a essa expedição um sabor maior de vitória.
Viagem vai virar livro
A viagem de Flávio Kenup ao Alasca deverá se transformar em um livro. Ele também pretende realizar palestras em empresas enfocando as dificuldades que enfrentou no dia-a-dia da expedição. O aventureiro ainda aguarda a verificação dos documentos que mandou para o Guiness Book, já que pretende incluir sua viagem no livro dos recordes.
Confira o relato do aventureiro Flávio Kenup em sua chegada ao Alasca
Apesar de o corpo pedir para eu descansar, tenho que seguir na estrada, não posso me dar o luxo de parar uns dias, preciso chegar ainda este mês ao Alaska, e nada de imprevistos agora.
Busco força não sei de onde, mas consigo rodar além do programado por dia. Tenho que dar também os parabéns a "Poderosa", porque não está nada fácil para ela. Estou dando um castigo forte esses dias à coitada.
Preparado para cruzar a penúltima fronteira, o coração já dispara como se fosse a primeira vez, realmente agora, só tenho olhos e pensamentos fixos no Alasca.
Programo sempre as paradas próximo aos 300 km, que tenho por meta diária para rodar, mas acabo sempre andando mais um pouquinho, e às vezes com sorte, consigo um lugar bom para dormir, outras vezes, caio em cada buraco danado, que chego a me xingar várias vezes.
Bem cedo, dei entrada no Canadá, foi tudo muito rápido e tranqüilo, agora só falta mais uma fronteira.
Engraçado que logo que entrei no Canadá tudo mudou. O clima, o tempo, as paisagens, as estradas, e o bom é que aqui posso andar no meu limite nas rodovias. A dificuldade também aumenta bastante, basta lembrar o fato dos postos de gasolina do México, aqui é bem parecido.
O frio está chegando, mas ainda está tranqüilo e espero que fique assim até eu chegar lá.
Estou assustado com os preços das coisas por aqui, tudo é bem mais caro do que nos Estados Unidos, fora os campings, que são entre 12 a 20 dólares, mas consigo às vezes acampar nos terrenos das casas. Quanto mais ao norte, o povo se mostra mais solidário ao viajante.
O verde do Canadá "realmente é totalmente diferente" (risos...até rimou) de qualquer outro que já vi, ao longo da estrada vou me deparando com os primeiros animais. Perto da cidade de Mackenzie, cruzei com um filhote de urso negro. Nervoso, continuei andando, logo em seguida resolvi fazer o retorno para poder observar melhor, mas não o vi novamente. Até chegar ao posto de gasolina, fiquei pensando se não era minha imaginação viajando ao ver aquele urso preto. Perguntei ao rapaz do posto se naquela região havia ursos negros, e ele me falou que sim, era normal. Então estou certo mesmo, acabei de ver meu primeiro urso e não fotografei.
Andei por uns 30 km sem luva e com a máquina pronta para tentar pegar um flash , mas não tive sorte, a única coisa que vi foi uma chuva de granizo no meu lombo, que a cada batida no meu capacete parecia que iria cair o mundo.
A ansiedade aumenta, e cada dia que passa para mim se torna mais longo. Essa chegada ao Alasca demora mais que a viagem até aqui.
Estou na Highway Alaska, ela me levará até lá, o coração bate até mais forte quando vejo alguns carros com a placa do Alaska, como é bom esta perto desse lugar, a emoção a cada dia se torna mais intensa.
As noites começam demorar a chegar. Para se ter uma idéia, dez horas da noite ainda está claro e com essa diferença não consigo dar início ao meu dia às 6 da manhã como costumava fazer, o frio chega pela madrugada e só permite fazer uma coisa, virar para o lado e dormir mais pouco.
Só mesmo em Watson Lake fui obrigado acordar às 6 da manhã, acordei e vi em volta da minha barraca búfalos. Não sabia se saía da barraca ou ficava bem quieto no meu canto para não ter problemas com eles. Pensei comigo: se tiverem que me pegar, farão isso dentro ou fora, então prefiro correr o risco lá fora mesmo, assim, posso observar melhor eles, caso não se irritem comigo. Dei sorte, consegui observar os búfalos por uns 50 minutos.
Mais um dia de emoção, fui pôr a minha placa no parque das placas na cidade de Watson Lake, não podia deixar de registrar isso aqui.
Essa tranqüilidade de andar por aqui, no Canadá, está me fazendo muito bem, só escuto o som do motor da minha "Poderosa" e o vento batendo no capacete, as noites curtas me tiram o sono e não poderia ser diferente, estou chegado lá, só escuto falar do Alasca.
Descansei na cidade de Whitehorse, capital de Yukon, cidade muito tranqüila com seus povos nativos bem simpáticos. Onde paro, as pessoas têm o prazer de observar a motoca, e só assim também paro para me dedicar um pouco mais a ela (risos).
Costumo parar na estrada para olhar as paisagens e acabo ficando alguns minutos, nessa hora começo a pensar, onde estamos, quanto já rodamos e quanto ainda teremos que rodar.
Isso para mim é muito importante, porque podemos juntos (eu e a Poderosa) mostrar para as pessoas que o nosso projeto não é impossível, e o Alasca se mostra cada vez mais real.
A cada dia passo por estradas diferentes, vejo gente nova e vou aprendendo com as pessoas, e elas comigo talvez.
Se não fosse a minha dedicação em cima da minha filha (Poderosa), em algumas horas, dias talvez, gostaria de estar em minha casa, sentado com minha família almoçando, mas escolhi ler um grande capítulo de um livro, onde neste livro eu sou o narrador, o personagem e até mesmo o escritor. Então, tenho que trabalhar.
A cada dia aprendo a controlar mais a solidão, não é fácil viver cada dia e saber que estou chegando ao ponto em que tanto trabalhei por várias noites nos mapas onde ficava perdido, muitas vezes, mas, isso é muito bom, quero poder chegar lá e falar que o Alasca agora existe para mim.
Todos nós temos um Alasca, basta trabalhar para ele aparecer, e ele acaba se tornando real.
A emoção toma conta de mim e as palavras, começam a tomar rumos diferentes.
Quem diria uma motoca tão humilde enfrentar esse desafio de peito aberto, sem chorar um dia se quer. Pequena e muito valente, hoje a Traxx Sky110-8 pode falar que rodou as Américas e ensinou a força que tem uma motoca como essa, pequena mas com um coração enorme e que com certeza deixou muitas motos grandes para trás.
Não poderia ser diferente ao encontrar a placa tão sonhada, BEM-VINDO AO ALASKA. Tive que chorar mais uma vez. Que luta foi chegar até aqui, mas valeu todo sacrifício dos 4.900 metros de altitude da Bolívia, a febre de quatro dias ao entrar no Peru, os cinco dias tomando banho no mar do Caribe, ficando totalmente assado, os dois dias preso no Panamá por falta de documento para transitar, e vários outros imprevistos que no final só me fortaleceram.
Estou muito emocionado hoje, dia 17 de agosto de 2007 às 13h30, com 25.800 km rodados em apenas três meses e 17 dias, porque depois de passar por 14 países, comemoro a nossa chegada ao Alasca, falo nossa, porque se não tivesse o apoio das mensagens de vocês na minha garupa, seria bem difícil completar esse desafio.
Chegamos galera, estamos no Alasca!! Parabéns a todos nós, agora, é começar a se preparar para volta.
Ainda tenho um desafio: subir da cidade de Fairbanks onde estou hoje - 19 de agosto, até a cidade de Prundhei Bay, que fica a 800 km, uma estrada que me fará lembrar a "Ruta" 40 da Argentina, estrada de rípio e cascalho, onde terei apenas um posto de gasolina, mas vale a pena para chegar ao final da América do Norte e cruzar o Círculo Polar.
Parabéns para todos nós e mais uma vez, muito obrigado a DEUS.
Flávio Kenup
Fonte: Mundo Plug
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